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ARTIGO ORIGINAL

Sistema de aquecimento para soluções cristaloides em ambulâncias do Samu

Gerson Luiz Leonarski1; Francieli Molinett2; Sandra da Silva Ferreira3

DOI: https://doi.org/10.5935/2764-1449.20240004

Resumo

INTRODUÇÃO: Uma das preocupações em pacientes vítimas de trauma é o controle da hipotermia, visto que, esses pacientes podem desenvolver esse quadro, devido à presença de hemorragias, e a sinergia da hipotermia e lesão traumática pode levar ao aumento da falência de órgãos e mortalidade. Em casos de hipotermia moderada (36ºC a 32ºC) e grave (< 32ºC) é necessário medidas invasivas de tratamento, como administração intravenosa de soluções cristaloides aquecidas a 37ºC a 40ºC como soro fisiológico ou ringer lactato. No entanto, em ambiente pré-hospitalar, manter as soluções cristaloides aquecidas nas ambulâncias, sempre foi um grande desafio, principalmente em regiões cujas temperaturas são mais baixas e fazem invernos rigorosos, devido à dificuldade de acesso a produtos elaborados especificamente para veículos de urgência e emergência. Diante desta dificuldade, este trabalho vem apresentar o resultado da elaboração de um sistema de aquecimento de soluções cristaloides confeccionado para ambulâncias de urgência e emergência do SAMU Sudoeste do Paraná.
METODOLOGIA: Em caixa metálica, medindo 20cm x 23cm x 23cm (L x A x C), revestiu-se internamente com uma manta térmica impermeável, instalou-se um termostato com regulador de temperatura, acoplou-se esse sistema na ambulância.
RESULTADOS: Desenvolveu-se um sistema de aquecimento para soluções cristaloides com material de baixo custo e fácil instalação, com controle de temperatura eficaz.
CONCLUSÃO: O sistema de aquecimento de solução cristaloide confeccionado pelo SAMU Sudoeste do Paraná apresentou-se extremamente eficaz e demonstra a importância do trabalho multidisciplinar entre a enfermagem e a farmácia pré-hospitalar, buscando sempre melhorar o ciclo da Assistência Farmacêutica.

1 INTRODUÇÃO

O corpo humano é homeotérmico, isto é, possui a capacidade de manter a temperatura corporal estável, mesmo com variações de temperatura do meio ambiente. A temperatura normal média do corpo humano é 37ºC quando medida oralmente e quando medidas no reto, os valores são aproximadamente 0,6ºC maiores que a temperatura oral (MUÑOZ et al., 2004).

A hipotermia é a diminuição da temperatura corporal central para valores inferiores a 35ºC, resultado da exposição do organismo ao frio intenso, independente da forma, quando os mecanismos reguladores, cutâneos e nervosos se exaurem rapidamente e a temperatura cai, deprimindo a produção de calor, resultado da disfunção do centro termorregulador hipotalâmico.

No cenário pré-hospitalar, pacientes vítimas de trauma, seja por violência urbana, acidentes automobilísticos, quedas, ferimentos por projétil de arma de fogo, ferimentos por arma branca, acidentes de recreação, entre outros, podem desenvolver quadro de hipotermia, devido à presença de hemorragias (BRASIL, 2014).

Dados dos Centers for Disease Control and Prevention demonstram que a hipotermia, quando ocorre em pacientes muito jovens ou muito velhos, ou quando se associa a problemas como hipotireoidismo, infecções e alcoolismo, podem acarretar taxas de mortalidade entre 65% a 90%.

Por isso, na avaliação primária de pacientes vítimas de trauma é imprescindível o controle e proteção contra a hipotermia, pois cerca de um terço dos pacientes com lesões graves desenvolvem esse tipo de alteração durante a fase de atendimento inicial, com redução da temperatura basal de 1ºC a 3ºC. A sinergia da hipotermia e lesão traumática pode levar ao aumento da falência de órgãos e mortalidade (MEYER et al, 2012; ATLS, 2018).

A manutenção da temperatura normal do paciente traumatizado é um aspecto extremamente importante para a segurança do paciente. A hipotermia leve (36ºC) geralmente pode ser tratada com aquecimento passivo, isto é, cobrir o paciente com cobertores e isola-lo do ambiente frio pode ajudar a restaurar a temperatura interna do paciente. Já em casos de hipotermia moderada (36ºC a 32ºC) e grave (< 32ºC) é necessário medidas invasivas, como administração intravenosa de soluções cristaloides aquecidas a 39 oC como soro fisiológico ou ringer lactato (ANJOS et al, 2008; ATLS, 2018).

No ambiente pré-hospitalar, manter as soluções cristaloides aquecidas nas ambulâncias, sempre foi um grande desafio, principalmente em regiões cujas temperaturas são mais baixas e fazem invernos rigorosos, devido à dificuldade de acesso a produtos elaborados especificamente para veículos de urgência e emergência.

Diante desta dificuldade, este trabalho vem apresentar o resultado da elaboração de um sistema de aquecimento de soluções cristaloides confeccionado para ambulâncias de urgência e emergência do SAMU Sudoeste do Paraná.

 

2 METODOLOGIA

Em caixa metálica, medindo 20cm x 23cm x 23cm (L x A x C), com porta de entrada e capacidade para 8 frascos de soluções cristaloides, revestiu-se internamente com uma manta térmica impermeável de 63cm x 23,5cm, confeccionado internamente em tecido de algodão e revestido com produto impermeável, com resistência para aquecimento antichamas, 127 volts.

Em seguida, acoplado à caixa metálica, instalou-se um termostato com regulador de temperatura, na base da caixa, entre a manta térmica e os fluidos cristaloides, e instalou-se esse sistema, ao sistema elétrico da ambulância.

Para aferição da temperatura das soluções cristaloides utilizou-se um termômetro digital, cujo sensor foi introduzido pela abertura de conexão do equipo, em ambiente controlado, entre 25 ºC e 26 ºC.

 

3 RESULTADOS E DISCUSSÃO

Desenvolveu-se um sistema de aquecimento onde após inúmeros testes e ajustes na temperatura máxima e mínima do termostato, padronizou-se a temperatura mínima em 36ºC e a temperatura máxima em 37ºC, isto é, o termostato é acionado a aquecer os fluídos sempre que chega a temperatura mínima no marcador de 36 oC, e é programado à desligar quando atinge 37 oC, funcionando assim, ininterruptamente, mantendo as soluções cristaloides aquecidas (FIGURAS 1, 2 e 3).

 


Figura 1. Sistema de aquecimento de soluções cristaloides Porta frontal aberta.

 

 


Figura 2. Sistema de aquecimento de soluções cristaloides Porta frontal fechada.

 

 


Figura 3. Sistema de aquecimento de soluções cristaloides Visão geral do interior da ambulância.

 

Essa faixa de temperatura foi padronizada, pois após a aferição da temperatura dos fluídos com termômetro digital, em ambiente controlado (fora da ambulância), após o desligamento do sistema, em 37 °C, os fluídos encontraram-se em temperatura entre 38°C e 39°C Para chegar neste resultado, foram realizados aferições em várias faixas de temperatura, até que a temperatura dos fluidos estivesse entre 37°C e 40°C, que é a temperatura recomendada pelo Prehospital Trauma Life Support (TABELA 1). (PHTLS, 2020).

 

 

Acredita-se que a diferença entre a temperatura do termostato e a temperatura dos fluídos no momento da aferição ocorra devido à conservação de calor dos fluidos, pois é certo que quando um corpo recebe calor, a energia interna aumenta, aumentando o grau de agitação térmica (GOERSCH, 2022).

Outra hipótese é a condução de calor da caixa metálica, pois sabe-se que os metais possuem elétrons livres em suas ligações metálicas, o que permite um transito rápido de temperatura e calor, tornando os metais bons condutores de calor (FELTRE, 2004).

A literatura científica sobre o sistema de aquecimento de fluídos em ambiente pré-hospitalar é escasso, pois a maioria dos estudos sobre o tema é realizada em hospitais, como o estudo realizado no Hospital Municipal de São José dos Campos, onde foram detectados problemas quanto ao aquecimento do soro fisiológico utilizado na Emergência e na Sala Cirúrgica. O soro fisiológico, neste estabelecimento de saúde, é aquecido utilizando-se uma caixa com uma lâmpada de uso doméstico, sem controle algum de temperatura dos frascos de soro. Já na sala cirúrgica e em caso de emergência, o soro é aquecido em micro-ondas, o que pode acarretar vários problemas: falta de controle da temperatura, que pode chegar a temperaturas abaixo do que é necessário (MUÑOZ et al., 2004).

Outro estudo, este realizado em hospital de Minas Gerais, bolsas de solução salina foram aquecidas em micro-ondas com variação de tempo e temperatura inicial. Este estudo demonstrou que a determinação da temperatura inicial é fundamental para manter uma temperatura final desejada após o aquecimento de solução salina por micro-ondas. (MEYER et al., 2012).

A infusão de grandes quantidades de líquidos intravenosos frios ou em temperatura ambiente contribui para a hipotermia e o aumento da hemorragia, isto é fato estabelecido há muito tempo. O aquecimento dos fluídos é significativamente benéfico para os pacientes, obtendo-se variáveis hemodinâmicas mais estáveis e temperatura central mais alta (MOOLA, 2011; PHTLS, 2020).

O PHTLS orienta a enrolar bolsas aquecidas ao redor do frasco para aquecer o fluído. Unidades de aquecimento de líquidos comercialmente disponíveis para o compartimento de cuidados do paciente oferecem um meio fácil e confiável de manter os líquidos na temperatura correta, porém são caras, e difícil aquisição em regiões distantes dos grandes centros urbanos.

No sistema desenvolvido neste estudo, os materiais utilizados foram de baixo custo e fácil instalação, obtendo o resultado esperado, isto é, temos um sistema de aquecimento controlado para administrar soluções cristaloides aquecidas dentro da temperatura ideal, além de agilizar o manuseio dos fluídos pelos profissionais socorristas do SAMU Sudoeste do Paraná.

 

4 CONCLUSÃO

O sistema de aquecimento de solução cristaloide confeccionado pelo SAMU Sudoeste do Paraná apresentou-se extremamente eficaz, garantindo o armazenamento dos fluidos em temperatura ideal para ser administrado em pacientes hipotérmicos, vítimas de trauma.

Este estudo demonstra a importância do trabalho multidisciplinar entre a enfermagem e a farmácia pré-hospitalar, buscando sempre melhorar o ciclo da Assistência Farmacêutica.

 

REFERÊNCIAS

1. Muñoz ISS.; Silva JL.; Hagiwara EK.; Zângaro RA.; Lima CJ. Sistema de aquecimento de soro fisiológico. VIII Encontro Latino Americano de Iniciação Cientifica e IV Encontro Latino Americano de Pós-Graduação – Universidade do Vale do Paraíba 324, 2004.

2. BRASIL. Ministério da Saúde. Linha de Cuidado ao Trauma na Rede de Atenção às Urgências e Emergências, 2014. Disponível em: portalarquivos2.saude.gov.br/images/pdf/2014/maio/20/Trauma-Diretrizes.pdf. Acesso em 24 de março 2023.

3. Centers for Disease Control and Prevention. Hypothermia-related deaths: Suffolk County, New York, January 1999- march 2000, and United States,1979-1998. MMWR Morb Mortal Wkly Rep. 2001;50(4):53-7

4. Meyer TN.; Ribeiro MFC.; Mendonça, AT. Estudo experimental do aquecimento de solução cristaloide por micro-ondas e dedução de equação para seu cálculo. Rev. Bras. Cir. Plást. 2012; 27 (4): 518-522.

5. Anjos CN.; Santiago GP.; Cerqueira LA.; Moraes TM. O potencial da hipotermia terapêutica no tratamento do paciente crítico. O Mundo da Saúde, São Paulo. 2008; Jan/Mar 32(1):74-78, 2008.

6. ATLS – Suporte Avançado de Vida no Trauma. 10ª ed. Chicago: American College of Surgeons, 2018.

7. PHTLS - Atendimento pré-hospitalar ao traumatizado. 9ª ed. Burlington: Jones & Bartlett Learning, 2020.

8. Goersch, M. C. S. Termodinâmica: conceitos e aplicações. Gama, DF: Uniceplac, 2022.

9. Feltre, Ricardo – 6.ed. – São Paulo: Moderna 2004 – v.1. Química Geral.

10. Moola S, Lockwood C. Effectiveness of strategies for the management and/or prevention of hypothermia within the adult perioperative environment. Int. J. Evid. Based. Healthc. 2011;9(4):337-45.


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